sexta-feira, 31 de maio de 2013

quarta-feira, 29 de maio de 2013


Escambo


    Por Saullo Castelo Branco

 
    Muito tem se discutido sobre a “importação” de 6.000 médicos estrangeiros sem a usual validação do diploma. De um lado a classe médica afirma que a vinda desses profissionais sem o devido processo de avaliação, trará prejuízos para a sociedade. Do outro lado a população desassistida aguarda a solução para deficiência na oferta de profissionais.

     Seguindo o pensamento do governo federal, venho sugerir a importação de outros profissionais que fazem falta no nosso querido país e mais precisamente à nossa Terra Querida. Começo sugerindo a importação de alguns políticos, usando sempre a fala do ministro Padilha: “...O que nós queremos é profissionais com qualidade...”. Vamos buscar as melhores referência no mercado mundial.
O melhor local para buscarmos políticos seria a Suécia. Lá, prefeitos e governadores não têm residencial oficial. Deputados estaduais e vereadores não recebem salário, e nada de gabinete também. Os apartamentos funcionais são minúsculos e os mesmos não têm empregados. Eles lavam a roupa suja na lavanderia comunitária. Nada de verba de gabinete, nada de motoristas, nada de assessores e nada de secretárias. O Primeiro Ministro arruma a própria casa. Acho que se implantasse esse sistema aqui, teríamos que importar todos.

     Para a Prefeitura de Teresina, gostaria que importássemos o ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani. Ele implantou a política do “Tolerância Zero” na questão da violência. Hoje, Nova Iorque é uma das mais segura das grandes cidades americanas. Rudy, como ficou conhecido, também priorizou a limpeza de locais públicos como metrô, praças, ruas e cartões postais como Central Park e a Time Square. Aqui, na Verde Cap, lixo de toda espécie se acumulam nas praças. Ali na Praça da Liberdade, em frente ao Karnak, tem um amontoado de entulho que já deu até pé de abóbora.

     A educação é a base para todo e qualquer desenvolvimento de verdade, e ela jamais poderia ficar de fora na nossa pauta de importação. Imagino que alguns leitores devem ter pensado: ele vai querer trazer os sul-coreanos que transformaram o país. Nada disso, sugiro a importação do finlandês Pasi Sahlbergs, homem forte do Ministério da Educação do país gelado. Lá, o governo implantou uma reforma no sistema de ensino em que o professor, esse ente abandonado por aqui, é admirado, e o magistério, a profissão mais almejada pelos jovens. Outra chave para o sucesso foi a universalização do acesso à educação e a formação voltada para o mercado de trabalho. E o que Finlândia ganhou com isso? Hoje eles ocupam a terceira colocação no ranking mundial de avaliação de alunos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico . O senhor Pasi trabalharia diretamente com o professor Antonio Amaral, aquele mesmo de Cocal dos Alves, na criação de uma educação pública de qualidade. Aí sim, estaríamos no caminho certo. 

      Para nosso turismo, pediríamos a imediata expatriação do pessoal da Disney e dos cassinos de Las Vegas. Os caras transformaram um pântano e um deserto em dois dos maiores e mais ricos destinos turísticos do mundo. Imaginem o que esse pessoal poderia fazer com as Lagoas do Norte, Curva São Paulo, Prainha e Potycabana? Encheríamos os bolsos de dinheiros com as hordas de turistas que invadiriam nossa querida capital.
Como a balança comercial ficaria desequilibrada com tanta importação, o jeito seria exportar todo o nosso excedente político. Começaríamos exportando os nossos suplentes de deputados e suplentes de vereadores, que assumem as vagas e partem para um verdadeiro show de horrores. Depois, poderíamos exportar parte do secretariado estadual e municipal, com suas respectivas entourages, que nunca aparecem nas repartições. Estes suplentes, servem apenas como bucha de canhão do joguete fisiológico do chefe do executivo de plantão, que sempre está no preparo de sua reeleição. Terminaríamos com os fichas sujas, que não são poucos. A dificuldade de encontrar alguém interessado em importa-los seria enorme. Mas isso seria trabalho para os especialistas em comércio e transporte de materiais perigosos vindos diretamente da Rússia e Estados Unidos.

     Já ouvi de um grande defensor do mercado livre, que deveríamos trazer também alguns operários de Bangladesh para fazer do Piauí um grande polo têxtil. O incauto sugeriu a implantação de um polo têxtil na região de Assunção do Piauí, alegando que de lá eles não fugiriam nunca, pois ninguém fala nem inglês, imagine o bengali. Disse que pagando um salário de 80 reais sem nenhum encargo adicional os asiáticos trabalhariam 14 horas sem reclamar. Só se alimentando de rato rabudo e aqui acolá um pedacinho de bode seco. Achei que ai já era demais....

Publicado Originalmente no Diário do Povo do Piauí - Número 9.693


segunda-feira, 27 de maio de 2013

domingo, 26 de maio de 2013


O Mafrensário


     Bem antes de Saraiva homenagear a imperatriz, os egípcios precisavam saber sobre as próximas cheias do Nilo, fundamental para fertilizar suas margens e possibilitar a agricultura, com esse problema eles criaram um calendário anual. Assim como os conterrâneos de Cleópatra muitas outras civilizações precisaram determinar a medição do tempo e os eventos rotineiros, como as cheias dos rios, as fases da lua, da posição do sol no horizonte e muito mais. Agora imaginem se de repente, nós teresinenses precisássemos determinar um calendário? O que usaríamos como marcos do tempo?

     Nossas estações climáticas se resumem a quente e mais quente ainda, nossos dias e noites têm a mesma duração praticamente o ano todo, grandes chuvas como as monções asiáticas nem pensar, temporada de ciclones nunca aconteceram. A solução para nosso calendário seriam mesmo os eventos políticos sociais que, esses sim, não falham.

     A greve dos motoristas e cobradores de ônibus poderia ser um marco a se pensar, e seria uma tão importante que serviria de base para outro, quarenta dias depois viria o aumento da tarifa do coletivo e na primeira quinta feira após o fim das manifestações a análise das planilhas marcaria o dia da Aceitação. E como toda boa data recorrente seria igual aos anos anteriores e com repetição exata nos anos seguinte.

    Pensei em usar a corrida eleitoral para assim determinar mais um período de tempo no calendário Mafrense, de agora em diante chamado de Mafrensário, mas essa corrida não tem fim. Entra ano, sai ano, amanhece e anoitece e lá estão eles, nossos retratos discutindo quem será o candidato a isso ou aquilo, quem vai assumir a secretaria de assuntos nucleares ou a pasta de desenvolvimento genético. Imaginem os feriados em homenagem ao Silas Freire, Amadeu Campos, Pedro Alcântara e outros que se dedicam a nobre arte do informe político? Melhor não.

     Uma coisa é certa, sempre que a Terra dá uma voltinha em torno do sol, nosso calendário atual esquece umas 6 horinhas e depois compensa isso com um dia a mais, o famoso ano bissexto. Pra esse perrengue já tenho a solução: começaram a prometer as galerias na zona leste, cinturão verde, uma tal de geração de emprego e renda ? Pronto, já temos certeza que se passaram quatro anos e nem precisaríamos usar cálculos astronômicos para isso.

     No Mafrensário a Festa do Rivanildo, seria uma data de celebração da nossa pungente sociedade, muito semelhante ao Carnaval de Veneza de outrora, com sua corte gigante, todos mascarados e com toda pompa e circunstancia que a fina flor desta mesopotâmia merece. Imaginem a comoção popular às vésperas, quem vai com quem? Quem vai dar vexame? Quem a crise mundial abocanhou e esse ano vai ficar de fora? Muita ansiedade tomaria conta da urbe e entraríamos de vez no cenário mundial de grandes eventos.

    Nossos estudantes não podem ser esquecidos, para isso a férias seriam alocadas para 20 dias após o aumento da tarifa do busão. Para essa data nada melhor que a semana sem carro, já que a Frei Serafim estaria tomada pela turba, enquanto isso nossos políticos poderiam marcar suas viagens ao litoral e ficar distante de toda essa celeuma.

    Todo anuário que se preze tem seu dia da Mentira, e no nosso poderíamos reservar pelo menos um dia a cada vinte, para enganarmos uns aos outros. Em comemoração a esta importante data, seriam publicada todas as notícias sobre as verbas, recursos e empresas que aqui se instalariam. Vem mais de bilhão de reais, ligaria o amigo tentando pregar uma peça. A FORD vai produzir no Polo industrial sul, ousariam nas rodas de botequim.

    Certamente contaríamos com a ajuda dos nobre vereadores, esses são mister na tarefa de criar datas especiais, dia do caju-anão , dia da diverticulite, dia de combate ao castor albino e outras tantas de importância incontestável. Criaram o dia do Orgasmo na cidade de Esperantina, mas esqueceram que orgasmo uma vez por ano é pouco e para corrigir isso tornaríamos em data mensal e somente neste seria liberado o pagamento do Fundo de Participação do Municípios.

     Pra fechar o ciclo anual nada melhor que o grande apagão de fim de ano em Luís em Correia, seguido da falta de água, caranguejo e da cerveja. Imaginem a contagem regressiva, 4,3,2,1 tudo escuro, as famílias se abraçando e desejando, as vezes praguejando que ano que vem tudo vai ser diferente e que nem morta passa por isso novamente. Mas no escuro sempre tem aquele que aproveita pra encoxar a cunhada e como tudo é festa mesmo todos esquecemos as promessas e juras de réveillon e caímos na gandaia até a luz voltar.

     Será que nosso Mafrensário deveria ter uma data final como o dos nossos colegas Maias ? Estou falando da Civilização e não do Tadeu, do Cesar e de outros que aqui habitam. Se tivéssemos uma data que marcaria nosso fim, pra nossa segurança, já teria de pronto uma importante data: a conclusão do Porto de Luis Correia ou do aeroporto de São Raimundo Nonato, só pra garantir que o fim estaria muito, mas muito longe de acontecer. E com essas datas apocalípticas surgiriam nossos profetas, sempre anunciando voos para o litoral, inaugurando terraplanagens, portos molhados e secos, estrada de ferro, campos de gás e até petróleo. Se depender desses Nostradamus do Corisco nosso calendário vai durar pra sempre.


Publicado originalmente no jornal Diário do Povo - Número 9.686