domingo, 26 de maio de 2013


O Mafrensário


     Bem antes de Saraiva homenagear a imperatriz, os egípcios precisavam saber sobre as próximas cheias do Nilo, fundamental para fertilizar suas margens e possibilitar a agricultura, com esse problema eles criaram um calendário anual. Assim como os conterrâneos de Cleópatra muitas outras civilizações precisaram determinar a medição do tempo e os eventos rotineiros, como as cheias dos rios, as fases da lua, da posição do sol no horizonte e muito mais. Agora imaginem se de repente, nós teresinenses precisássemos determinar um calendário? O que usaríamos como marcos do tempo?

     Nossas estações climáticas se resumem a quente e mais quente ainda, nossos dias e noites têm a mesma duração praticamente o ano todo, grandes chuvas como as monções asiáticas nem pensar, temporada de ciclones nunca aconteceram. A solução para nosso calendário seriam mesmo os eventos políticos sociais que, esses sim, não falham.

     A greve dos motoristas e cobradores de ônibus poderia ser um marco a se pensar, e seria uma tão importante que serviria de base para outro, quarenta dias depois viria o aumento da tarifa do coletivo e na primeira quinta feira após o fim das manifestações a análise das planilhas marcaria o dia da Aceitação. E como toda boa data recorrente seria igual aos anos anteriores e com repetição exata nos anos seguinte.

    Pensei em usar a corrida eleitoral para assim determinar mais um período de tempo no calendário Mafrense, de agora em diante chamado de Mafrensário, mas essa corrida não tem fim. Entra ano, sai ano, amanhece e anoitece e lá estão eles, nossos retratos discutindo quem será o candidato a isso ou aquilo, quem vai assumir a secretaria de assuntos nucleares ou a pasta de desenvolvimento genético. Imaginem os feriados em homenagem ao Silas Freire, Amadeu Campos, Pedro Alcântara e outros que se dedicam a nobre arte do informe político? Melhor não.

     Uma coisa é certa, sempre que a Terra dá uma voltinha em torno do sol, nosso calendário atual esquece umas 6 horinhas e depois compensa isso com um dia a mais, o famoso ano bissexto. Pra esse perrengue já tenho a solução: começaram a prometer as galerias na zona leste, cinturão verde, uma tal de geração de emprego e renda ? Pronto, já temos certeza que se passaram quatro anos e nem precisaríamos usar cálculos astronômicos para isso.

     No Mafrensário a Festa do Rivanildo, seria uma data de celebração da nossa pungente sociedade, muito semelhante ao Carnaval de Veneza de outrora, com sua corte gigante, todos mascarados e com toda pompa e circunstancia que a fina flor desta mesopotâmia merece. Imaginem a comoção popular às vésperas, quem vai com quem? Quem vai dar vexame? Quem a crise mundial abocanhou e esse ano vai ficar de fora? Muita ansiedade tomaria conta da urbe e entraríamos de vez no cenário mundial de grandes eventos.

    Nossos estudantes não podem ser esquecidos, para isso a férias seriam alocadas para 20 dias após o aumento da tarifa do busão. Para essa data nada melhor que a semana sem carro, já que a Frei Serafim estaria tomada pela turba, enquanto isso nossos políticos poderiam marcar suas viagens ao litoral e ficar distante de toda essa celeuma.

    Todo anuário que se preze tem seu dia da Mentira, e no nosso poderíamos reservar pelo menos um dia a cada vinte, para enganarmos uns aos outros. Em comemoração a esta importante data, seriam publicada todas as notícias sobre as verbas, recursos e empresas que aqui se instalariam. Vem mais de bilhão de reais, ligaria o amigo tentando pregar uma peça. A FORD vai produzir no Polo industrial sul, ousariam nas rodas de botequim.

    Certamente contaríamos com a ajuda dos nobre vereadores, esses são mister na tarefa de criar datas especiais, dia do caju-anão , dia da diverticulite, dia de combate ao castor albino e outras tantas de importância incontestável. Criaram o dia do Orgasmo na cidade de Esperantina, mas esqueceram que orgasmo uma vez por ano é pouco e para corrigir isso tornaríamos em data mensal e somente neste seria liberado o pagamento do Fundo de Participação do Municípios.

     Pra fechar o ciclo anual nada melhor que o grande apagão de fim de ano em Luís em Correia, seguido da falta de água, caranguejo e da cerveja. Imaginem a contagem regressiva, 4,3,2,1 tudo escuro, as famílias se abraçando e desejando, as vezes praguejando que ano que vem tudo vai ser diferente e que nem morta passa por isso novamente. Mas no escuro sempre tem aquele que aproveita pra encoxar a cunhada e como tudo é festa mesmo todos esquecemos as promessas e juras de réveillon e caímos na gandaia até a luz voltar.

     Será que nosso Mafrensário deveria ter uma data final como o dos nossos colegas Maias ? Estou falando da Civilização e não do Tadeu, do Cesar e de outros que aqui habitam. Se tivéssemos uma data que marcaria nosso fim, pra nossa segurança, já teria de pronto uma importante data: a conclusão do Porto de Luis Correia ou do aeroporto de São Raimundo Nonato, só pra garantir que o fim estaria muito, mas muito longe de acontecer. E com essas datas apocalípticas surgiriam nossos profetas, sempre anunciando voos para o litoral, inaugurando terraplanagens, portos molhados e secos, estrada de ferro, campos de gás e até petróleo. Se depender desses Nostradamus do Corisco nosso calendário vai durar pra sempre.


Publicado originalmente no jornal Diário do Povo - Número 9.686

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