quinta-feira, 6 de junho de 2013
Por que o Neymar ?
Saullo Castelo Branco
Não se fala em outra em coisa! - reclama na sala de espera do médico uma senhora, ao ver no noticiário mais uma matéria sobre a transferência do Neymar por aproximadamente 150 milhões de reais. E realmente não se fala em outra coisa! Mas o que era pra ser uma boa notícia, se torna motivo de chateação pra boa parte da classe média brasileira.
Nossa classe média ama odiar o ex-santista. Chamam o rapaz de mascarado, cai cai, marketeiro, pipoqueiro e toda sorte de adjetivos pejorativos. O problema é que não gostamos de ver ninguém crescendo por mérito próprio, pelo seu esforço e obstinação. E quando essa pessoa vem lá de baixo e passa direto por nós indo habitar o panteão dos muitos ricos essa insatisfação é ainda maior.
Nós somos quase uma espécie, os Classis Mediuns Recalquins, e como todas as espécies, temos nossos mecanismos de defesas. Um deles é justamente a não aceitação de indivíduos vindos de outra camada social. Não queremos pobres nas agências bancárias nos finais de semana, não aceitamos que os aeroportos estejam tomados por gente feia, não queremos nosso trânsito povoado por motocicletas e nem que as babás e empregadas tenham salários dignos e pior ainda, nos adicione no Facebook.
Não seria diferente com o moleque que joga bola e treina com dedicação desde a infância, o rapaz franzino que ousou acreditar e batalhar pelo seu sonho: jogar futebol no Barcelona. Esse garoto não sonhava com uma sinecura, não queria o conforto do funcionalismo público, as férias, as indicações políticas, um contratinho camarada com alguma secretaria. Não, ele queria jogar bola e por mais coletivo que seja o futebol, o mérito individual se sobressai e o craque é reconhecido. Isso é demais pra gente!
Há algum tempo um jovem futebolista brasileiro também despontou e arrebatou um contrato milionário com um time estrangeiro, mas não ouve tanta gritaria. Claro! O jogador Kaká tinha tudo que a classe média ama: branquinho, sorriso Colgate, religioso, bom moço e educado. O típico rapazinho que os pais desejam para suas filhas.
Neymar Junior chegou, conquistou seu espaço, comprou brincos de ouro e diamante, carros importados, iates, assinou vários contratos e aos 21 anos de idade realizou o seu grande sonho. Assim como o aquela senhora na sala de espera, não aceitamos que alguém acredite, trabalhe, conquiste e por fim mereça.
Vai Neymar, realize seus sonhos, seja motivo de inspiração para milhares de meninos, mostre que o trabalho vence o marasmo e deixe a classe média ainda mais insatisfeita, porque é assim, insatisfeitos e amargurados, que gostamos de viver.
Publicado Originalmente no Diario do Povo do Piauí -Número 9.701
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